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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014


O TEMPO!

É uma constatação lógica. O tempo é, definitivamente, um dos deuses mais lindos! Do momento do nascimento, onde começamos a fantástica jornada através de um turbilhão de emoções cotidianamente vivenciados, até o momento sombrio e misterioso de nossa morte, o tempo está sempre presente, atuando diretamente sobre nós, conduzindo-nos pelo caminho da vida.
É engraçado perceber, mas nem sempre nos damos conta de sua presença, pois que o tempo é um ente cósmico e metamórfico que nos confunde com sua essência sempre variável. A percepção humana do tempo é bem diferente da que os animais possuem. Nossos sentidos apurados condicionaram-nos a sentir o tempo em todas as suas peculiaridades. Possuímos sensações sobre a passagem do tempo que vão da lentidão, passando para a rapidez e finalmente chegando à sensação de perda e de retorno.
Quando somos crianças, o tempo assume uma dimensão diferente, e como uma textura palpável é nosso aliado. Os dias passam leves e atrativos, sempre cheios de tesouros mágicos em momentos de extrema descoberta. As noites infantis são de puras revelações, de sonhos fantásticos e inebriantes, permitindo assim, ultrapassar com facilidade, as barreiras do mundo físico, nos deixando adentrar no mundo dos espectros de luz, onde a noção de tempo é percebida de maneira diferente pela densidade de nosso corpo biológico. O tempo para as crianças é sempre assim: enigmático e amistosamente companheiro da doce juventude. Arrasta-se sem pressa. É como se outro deus fosse... o INFINITO.
Mas quando se é adulto, o tempo tem outra consistência. Torna-se dinâmico e cheio de compromissos inadiáveis. É inabalável e assemelha-se às corredeiras de um rio caudaloso, onde as águas fluem violentas em um ritmo frenético e contínuo. É inexorável, incorruptível e escravizador. O tempo tem aqui, seu próprio tempo, é senhor absoluto de todas as vidas, conduzindo-as através da sucessão das horas que agora voam. Não se demora mais. Não acaricia os sonhos durante a noite. O tempo parece que também tornou-se adulto. Não é mais um companheiro irresponsável e brincalhão. Está muito mais para ferrenho adversário, algo com quem se tem que negociar constantemente. Torna-se mais pragmático e assume uma cara sisuda, sempre cheio de afazeres inadiáveis. O tempo não encontra mais espaço para devaneios ou quimeras juvenis. Não é mais afável, como aquelas nuvens branquinhas, feito algodão doce, onde quando crianças, imaginávamos desenhos de animais e objetos. O tempo é algo com quem se luta, é algo a ser vencido e não vivido. É um inimigo cruel de nossos melhores momentos.
Mas, depois de tanto correr, o tempo passa, e então se revela como realmente deve ser compreendido: o tempo é um deus. Encontramos na velhice o aprendizado árduo de tanto tempo vivido. Podemos ver nas paginas do tempo o nosso livro ali impresso. Podemos vislumbrar também as marcas deixadas em nosso corpo pelas lutas travadas. Aqui o tempo se mostra brando, mas no mesmo instante tênue, como se por um fio estivesse. Mostra-se frágil, finito em sua gigantesca vontade de perpetuar-se. O tempo nos faz nostálgico, escaladores das altitudes monstruosas de nossas lembranças. O tempo é corrosivo. Sentimos sua fluidez gasosa, e seu cheiro de intensa saudade faz a alquimia que transforma em lágrimas nossas lembranças mais doces. O tempo se dobra sobre nós. Aquece desejos que não mais são palpáveis. O desejo da juventude que já não volta. O colo materno, o primeiro passo, o primeiro brinquedo. O tempo não olha mais para trás. E se não olha, não pode retornar por onde veio. O desejo do regresso contrasta com as rugas que denunciam que o tempo, esse deus que se mostra agora tão cruel, já não pode mais voltar e passou rápido demais. Na velhice o tempo mostra sua face mais tenebrosa. Ele vislumbra um vazio e uma solidão que torna a alma cambaleante, sensível e solitária. No desejo de eternidade o anjo da morte nos espreita. Ele também é escravo do tempo, mas nunca chega cedo ou tarde demais. Chega sempre na hora certa. Na hora em que o tempo já não nos basta mais.

Por: Franco Neto.
Formado em História pela UESPI - Universidade Estadual do Piauí
Pós-Graduação em Estado, Movimentos Sociais e Cultura.
Professor de História do Município de Teresina – Piauí.

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