MANIFESTO AOS VERDADEIROS PATRIOTAS
O que é ser brasileiro? O que é ser patriota e realmente assumir o papel de um cidadão preocupado com os destinos da pátria? Será mesmo que fazemos jus ao hino nacional, que exalta em um de seus trechos, a nossa bravura e a nossa falta de medo diante da morte e dos obstáculos? Recentemente, em um bate-papo com meus alunos durante o intervalo para a merenda, fui questionado sobre a copa do mundo e sobre minha expectativa com a seleção brasileira de futebol. Respondi que apesar de gostar de futebol e de até torcer para um time de grande expressão nacional, não estaria apoiando a seleção brasileira de futebol e tão pouco aprovando a realização desta copa do mundo em solo brasileiro. Lembro-me de ter dito que existem preocupações outras no momento e que torceria contra a seleção como forma de protesto diante de tantos descasos, na saúde, na educação, na segurança, no transporte público, na impunidade dos corruptos, etc. A reação foi imediata. Na opinião deles, como eu, um professor de História, seria tão antipatriota a ponto de desejar a derrota da seleção brasileira? Isso me deixou um tanto quanto intrigado, pois não pude deixar de fazer uma relação entre o pensamento dos meus alunos e o pensamento da maioria das pessoas que conversam comigo sobre o mesmo assunto. Todas, sem exceção taxam-me de traidor da pátria e me condenam ao abismo dos desertores apátridas. Isso ficou martelando em minha cabeça por dias a fio. A questão sobre patriotismo sempre me instigou e nunca me satisfiz com a noção equivocada e falsa que foi construída desde os meus tempos de escola. Nossa história, escrita de cima para baixo, com heróis fabricados sobre encomenda, para satisfazer aos egos daqueles que sempre tiveram o poder nas mãos, foi pródiga em idealizar o patriota perfeito. Mas aqui a verdadeira tentativa não foi a de forjar o patriota, mas sim o do perfeito idiota, que a tudo assiste e engole. Nossa história é única em enganação e mentiras. Temos momentos de beleza épica, isso é inegável, onde os ideais de liberdade realmente foram o farol a guiar os verdadeiros heróis nacionais. Mas quiseram os donos do poder o esquecimento desses verdadeiros patriotas. Que o digam os alfaiates de 1798, que o digam os negros, índios, mestiços, vaqueiros e roceiros do 13 de março de 1823. Longe de serem inconfidentes fiéis apenas aos seus próprios desejos de substituição de uma forma de poder por outra, representaram a seu tempo os verdadeiros ideais de liberdade. A escravidão dos negros e o extermínio dos nossos índios ainda hoje são tratados como assuntos menores, muitas vezes ignorados propositadamente ante a grandeza da hipocrisia dos fantoches criadores da "independência" e de nossa "república das bananas". Muitas vezes chego a acreditar naquela máxima que diz que o Brasil é um país que não deve ser levado a sério. Vê-se de tudo por aqui, menos aquilo que seria o mais importante: a coerência em nossas ações. Sei que o esporte é um importante veículo de socialização, entretenimento e até mesmo de inclusão social. Sei também que em um país tão cheio de mazelas e demandas sociais, o futebol por muitas vezes serve como uma válvula de escape para muitos que sofrem as agruras de uma vida tão carregada de necessidades. Mas o que assistimos hoje não se trata de uma salutar forma de disputa esportiva, antes o que se vê é uma corrida desesperada pelos dividendos astronômicos que o futebol ao longo do tempo conseguiu alcançar. A supervalorização de jogadores e a elevação destes à categoria de verdadeiros deuses trouxe uma visão deturpada daquilo que seria o verdadeiro propósito dessa prática esportiva. A realidade cruel do mundo do futebol nos mostra que nem todo jogador tem seu nome elevado ao panteão olímpico. E isso pouco tem a ver com sua habilidade com a bola, longe disso, está muito mais atrelado ao domínio da especulação e da manipulação de sua imagem pela mídia selvagem "fabricante de heróis". Para as pessoas comuns, para aqueles que consomem o que é fabricado como algo essencial para suportar as dificuldades da vida, esses heróis significam muito, muitas vezes até a própria vida. Movidos por esse ciclo vicioso é imperativo então se criar uma máquina fabricadora de sonhos e sugadora de mentes. O cenário hoje é diferente, mas a ideologia é a mesma utilizada nos piores anos da história recente de nosso país. Durante a Ditadura Militar (1964 - 1985), os homens do poder criaram um país que dava certo. O país do futuro. Rico, afortunado, próspero, pacato, ordeiro e de povo trabalhador. O Brasil que dava certo era o país do carnaval, das belas mulheres e da melhor seleção de futebol do mundo. Isso motivava a massa trabalhadora a acreditar, mesmo diante de tantas dificuldades, que tudo era justificável para se chegar ao degrau que o Brasil realmente merecia, até mesmo as torturas, execuções e exílios. Tudo era permitido, pois o país seguia incólume seu rumo para um futuro brilhante. Pura hipocrisia ideológica! Hoje os tempos são outros, mas o Brasil continua tão hipócrita quanto antes. Nossos governantes continuam vendendo nossa imagem de país do futuro. Terra de oportunidades, país do sol, do carnaval, do samba, das belas mulheres, da melhor seleção de futebol do mundo, país das oportunidades, país da inclusão social, da distribuição de renda e do povo mais pacífico do mundo. Tudo isso sem torturar, assassinar ou exilar. Mas isso não torna o Brasil menos violento do que antes. Senão vejamos: O Brasil, é estatisticamente o país mais violento do mundo, seja no trânsito ou em qualquer outro indicativo que se possa analisar. É o país onde mais se pagam impostos e um dos países com os piores resultados obtidos em avaliações sobre a qualidade de sua educação pública. É o país onde mais ocorrem assassinatos, superando qualquer guerra moderna. É um dos piores quando o assunto é a utilização do dinheiro público, e aqui chegamos ao ponto que interessa e que tanto tem me perturbado ultimamente. Se por aqui se tem tanta corrupção e se os políticos envolvidos em desvios e falcatruas saem impunes de seus crimes, muitas vezes perpetuando-se em seus cargos, por que eu seria antipatriota por não apoiar a seleção brasileira na copa do mundo? Por que fechamos os olhos para o que realmente interessa? A quem interessa nosso descaso? Serei eu mesmo um apátrida anárquico e pervertido social? Para início de conversa é preciso que se esclareçam alguns pontos importantes. Em primeiro lugar, a copa do mundo do Brasil está sendo a copa mais cara da história, e isso em um país onde faltam leitos em hospitais, onde faltam médicos e cotidianamente pessoas morrem em filas de hospitais e postos de saúde espalhados por todo o país, graças ao descaso dos governantes com a população que precisa de saúde pública. Todos os custos da copa estão sendo financiados com dinheiro público e não com o da iniciativa privada, como foi acordado na ocasião em que o Brasil foi escolhido como país sede. Este mesmo dinheiro público é o que falta para que no Brasil se tenha uma escola pública de qualidade. É inacreditável que ainda existam no Brasil milhões de analfabetos, que existam escolas caindo aos pedaços, onde alunos assistem às aulas, sentados em carteiras quebradas e até mesmo sentados no chão. É inaceitável que milhares de professores que dedicam suas vidas ao magistério sejam tratados como vagabundos pela grande maioria das "autoridades" desse país e tenham no final do mês um salário que mal dá para o sustento da família, obrigando estes professores a cumprir uma jornada dupla, e até mesmo tripla de trabalho exaustivo que afeta muitas vezes sua própria saúde. É inconcebível que os idosos deste país, após anos de trabalho árduo sejam brindados com aposentadorias irrisórias enquanto os "homens da lei", que mal cumprem com seus horários em câmaras legislativas espalhadas por todo o Brasil, se aposentam com verdadeiras fortunas. É lastimável que em nosso país um trabalhador que arduamente suporta uma carga de trabalho extenuante ganhe tão pouco, e ainda seja obrigado a utilizar-se de um transporte público tão imundo e caro quanto o oferecido em nossas grandes capitais. Muitos destes trabalhadores sequer têm acesso a qualquer tipo de assistência médica ou previdenciária. É triste constatar a presença nociva de veículos de comunicação tão comprometidos com a política partidária e completamente subservientes ao sistema de poder político estabelecido no país, em uma clara demonstração de manipulação de consciências através de programas alienantes e aliciantes de uma juventude frágil e exposta. É temeroso ver o monstro televisivo fabricar a todo instante, personalidades fictícias que ganham vida e provocam a escravidão das consciências com novelas de gosto duvidoso, a sexualidade escancarada em ritmos modistas que são verdadeiros caça-níqueis à custa da imbecilidade de uma nação onde a cultura não é a prioridade. Em segundo lugar, a seleção brasileira de futebol está cumprindo um papel nefasto que já foi cumprido antes. Sua função é a de mascarar uma realidade que a todo instante deseja tornar-se conhecida de todos. Nossos hipócritas governantes desejam calar as consciências livres deste país, para que seus planos de poder perpétuo se concretizem. O futebol hoje a muito que deixou de ser apenas uma prática esportiva e passou a representar o que há de mais imundo e sórdido no mundo do dinheiro. Nossos jogadores podem até se destacar como esportistas, mas longe estão de preocuparem-se com as mazelas de nosso país. Para dizer tudo isso que estou falando, é preciso ser muito apaixonado pelo Brasil e fazer de tudo para que os olhos dos que dormem deitados em berço esplêndido finalmente acordem para a realidade. Não é simplesmente torcer contra, ou desejar o mal alheio, mas antes de tudo, uma questão de consciência patriótica. A derrota da seleção brasileira seria o tiro que saiu pela culatra. Analogicamente seria o sino que despertará milhões de letárgicos para os desmandos de um país em que as pessoas ainda morrem de desinteria por falta de tratamento d'água e saneamento básico. A derrota da seleção brasileira mostraria a semelhança do Brasil de hoje com a França pré revolução de 1789. Lá, Luís XVI gastava dinheiro público com o luxo da corte e com festas monstruosas, enquanto a população morria de fome nas calçadas de Paris. Aqui, nossos "reizinhos" também gastam o dinheiro público em estádios luxuosos e obras faraônicas, enquanto os trabalhadores e povo simples amarguram filas para marcar simples consultas. Nossas autoridades torram dinheiro público com o custeio de gabinetes e de cargos de confiança, com a compra de passagens aéreas para viagens internacionais de políticos e seus familiares enquanto nossas estradas diariamente transformam- se em abatedouros humanos. O Brasil ao perder a copa mostrará suas feridas purulentas e então será difícil segurar o descontentamento da multidão. Eles querem a todo custo ganhar, sonham desesperadamente por uma vitória. Só assim continuarão a fazer do país seu playground. Enquanto o povo comemoraram vitória que não é sua, eles comemoração a perpetuação desse estado de desmando e de roubo. Então eu discordo dos meus alunos que me chamaram de antipatriota, e grito a plenos pulmões: eu sou sim um patriota, porque percebo tais distorções em nosso frágil tecido social e não me acomodo diante deste quadro. E esse manifesto tem um único objetivo: Fazer com que os verdadeiros patriotas apareçam e gritem pela verdadeira independência do nosso país. Apareçam patriotas! Está na hora de fazermos a nossa revolução. Gritemos também sem medo: "Não faço parte desta farsa e torço contra a seleção na copa do mundo. Quero um país de verdade, onde a educação seja tratada com dignidade, para que todos tenham liberdade plena. Onde exista saúde e segurança para todos. Onde o direito de livre pensamento não esteja expresso apenas em belas linhas em nossa Constituição de gaveta. Acorda Brasil!". Esse grito precisa ecoar por todo o país. Esta seleção não me representa e este não é o país que eu desejo para o futuro. O exemplo dado aos nossos jovens por esses jogadores não é dos melhores, e a copa, se ganha, nada trará de mudança para a vida do cidadão comum, mas ao contrário, encherá de dinheiro os cofres e bolsos daqueles que sempre se aproveitaram da ingenuidade do povo: dirigentes oportunistas, políticos corruptos e jogadores pouco interessados pelos problemas sociais do país. Nesta copa, seja patriota, torça contra o Brasil!
Por: Franco Neto.
Formado em História pela UESPI e Pós Graduado em Estado, Movimentos Sociais e Cultura.
Professor de História do Município de Teresina - Piauí.